Dislexia
Sempre que abordo transtornos neurobiológicos aqui no blog ou no Instagram, destaco que é comum eles se manifestarem de forma associada nos pacientes. Um desses transtornos, a dislexia, é um dos mais comumente apresentados em pacientes com diagnóstico de TDAH.
Pela etimologia da palavra é possível iniciar a explicação do transtorno. “Dislexia” vem do grego, sendo formado pelo prefixo “dis”, que significa “dificuldade” ou “distúrbio”, e “lexis”, que significa “palavras” ou “linguagem”. Portanto, a dislexia é uma dificuldade com as palavras ou, tecnicamente falando, um distúrbio de linguagem.
Na Classificação Internacional das Doenças, a dislexia é definida como um transtorno de desenvolvimento da aprendizagem com comprometimento da leitura. Ela caracteriza-se por dificuldades significativas e persistentes na aprendizagem de habilidades relacionadas à leitura: precisão de leitura de palavras, fluência e compreensão. O desempenho da criança manifesta-se marcantemente inferior ao esperado tanto para a idade quanto para o nível de funcionalidade intelectual.
Estudos apontam que aproximadamente 10% das crianças do mundo sofrem de dislexia. A situação no Brasil está em linha com o mundo: estima-se que 7% das crianças da educação básica nacional apresentam dislexia.
Mas o que causa esse transtorno? Como ele se manifesta? Quais são as implicações e o que pode ser feito pelas pequenas e pequenos disléxicos? Na sequência deste texto, apresentaremos essas respostas.
Causas e sinais
A dislexia é causada por diferenças tanto na dinâmica quanto na morfologia do cérebro, quando comparados a pessoas que não são portadores do transtorno. Essas diferenças estão principalmente nas regiões temporoparietal e occipitotemporal do hemisfério esquerdo do cérebro.
Estudos nos quais foram realizados o SPECT – o exame de tomografia computadorizada por fóton único – demonstraram diminuição do fluxo sanguíneo em áreas do lobo temporal esquerdo. No que se refere às diferenças morfológicas, já foi relatada assimetria do plano temporal, com o hemisfério direito apresentando área maior que o esquerdo.
Essas diferenças no cérebro do disléxico são geradas ainda na fase embrionária, ou seja, bem no início da gravidez da mãe. Pesquisas que mapearam o genoma de pacientes indicam que os genes DCDC2 e KIAA0319, que têm a função de comandar a migração de neurônios para formar as camadas estruturais do córtex, operam em menor quantidade. Assim, os neurônios não conseguem chegar às camadas de destino e o cérebro se forma com diferenças.
Os principais sintomas da dislexia são:
- Dificuldade crônica em aprender a relação entre a letra e o som
- Dificuldade em provas de consciência fonológica
- Inversões de sílabas ou palavras
- Substituição, supressão ou adição de letras e sílabas na escrita
- Confusão com letras que possuem orientações espaciais parecidas
- Leitura lenta, silabada e com baixa compreensão do texto lido
Dislexia: diagnóstico e tratamento
Assim como todos os outros transtornos neurobiológicos, o diagnóstico da dislexia é clínico. E da mesma forma que é feito em casos suspeitos de autismo, de TDAH e do transtorno do processamento sensorial, recomenda-se que pacientes disléxicos consultem-se com uma equipe multidisciplinar para fechar o diagnóstico. Além da pediatra, principal responsável pela análise clínica, a atuação de uma fonoaudióloga é fundamental. Junto às duas, são altamente recomendadas consultas a um psicopedagogo e a um psicólogo.
Não existem medicamentos para a dislexia. Todo o tratamento é por meio de acompanhamento contínuo dos profissionais que compõem a equipe multidisciplinar que atende a criança. Em geral, eles utilizarão exercícios que se sustentam em métodos multissensoriais e fônicos. Eles têm a função de treinar o cérebro do paciente para decodificar a leitura, facilitando a ortografia e a fluência.
A escola é o principal parceiro no desenvolvimento da criança disléxica. É fundamental conversar com a direção e com os professores para verificar a possibilidade de adequações metodológicas. Há escolas que concedem tempo extra para a realização de provas ou permitem que elas sejam feitas de forma oral.
Nenhuma ação é mais favorável para a criança com dislexia do que a intervenção precoce. Quanto antes se inicia o tratamento, melhores são os resultados e menor o impacto na vida adulta. Portanto, quanto mais rapidamente o diagnóstico for feito, maiores as chances do atraso na aprendizagem da linguagem ser reduzido a um nível insignificante.
Crianças só podem ser classificadas como disléxicas a partir dos sete anos – até esta idade, não é possível confirmar o transtorno. Portanto, se a sua filha ou filho já está com essa idade e tem apresentado dificuldade na escola, especialmente com a linguagem, leve-o à pediatra. Iniciaremos a análise clínica junto à fonoaudióloga e demais profissionais para que, se necessário for, o tratamento comece o quanto antes!
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