Depressão em crianças e adolescentes

Nos últimos 10 anos estão sendo documentados cada vez mais casos de transtornos neurobiológicos infantis, sejam eles o transtorno do processamento sensorial, o autismo, o transtorno de ansiedade, o TDAH, dentre outros. Contudo, não por acaso, nenhum preocupa mais os pais e cuidadores que a depressão em crianças e adolescentes.

Ela é um transtorno de humor e pode afetar significativamente a capacidade de um indivíduo funcionar. Em crianças, a identificação e diagnóstico tornam-se ainda mais desafiadores uma vez que elas tem, naturalmente, uma maior dificuldade em expressar o que sentem. Diante de um transtorno que afeta principalmente o humor e os pensamentos, fica ainda mais difícil para crianças e adolescentes serem assertivos nos relatos aos pais e à pediatra.

Em alguns lugares do mundo, a depressão em crianças e adolescentes já se tornou uma questão de saúde pública. Um estudo publicado em 2021 mostra que o número de diagnósticos manteve-se razoavelmente estável entre 1990 e 2015, ano no qual os casos começaram a evoluir com mais velocidade. Entretanto, no primeiro ano de pandemia de Covid-19, a quantidade de diagnósticos dobrou.

Estudos recentes mostram que cerca de 20% das crianças e adolescentes do Brasil apresentam algum tipo de transtorno mental, sendo que as mais comuns são depressão e ansiedade. Esses números são equivalentes às taxas de outros países do mundo.

A depressão em crianças e adolescentes é uma condição extremamente delicada e demanda muito cuidado e participação, seja dos parentes, da escola e, principalmente, do núcleo familiar. Siga no texto para entender com mais detalhes esse transtorno.

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Causas e sintomas

Assim como os outros transtornos neurobiológicos, a depressão possui causas multifatoriais sendo que as ambientais (ou cognitivas) exercem grande influência no quadro. Contudo, já se sabe que fatores bioquímicos também contribuem bastante para o desenvolvimento da condição depressiva.

Apesar de ainda não existir consenso científico e do campo carecer de mais estudos, pesquisas apontam que pessoas com depressão são deficientes na síntese de neurotransmissores da classe das monoaminas, principalmente a noradrenalina e a serotonina. Essas substâncias tem diversas funções no sistema nervoso central:

  • Regulação do estado de alerta e do ciclo circadiano
  • Controle de apetite
  • Estabilidade de humor
  • Percepção de dor
  • Capacidade de atenção e resposta automática diante de estresse agudo (o mecanismo de “luta ou fuga”).

 

Várias dessas funções bioquímicas interagem com nossa cognição. A fome, a dor e o medo são sensações que afetam nosso humor. Se no indivíduo há uma deficiência na produção de substâncias químicas que ajudam a lidar com essas sensações e o ambiente agrava os sentimentos, há espaço para aquela pessoa desenvolver sinais de depressão.

As causas da baixa produção de noradrenalina e serotonina são, em geral, genéticas. Dados do Ministério da Saúde mostram que 40% da suscetibilidade no desenvolvimento da depressão é dado pelo componente genético.

Contudo, apesar dos fatores bioquímicos serem importantes, em boa parte dos casos de depressão em crianças e adolescentes, as principais causas são os fatores ambientais. Alguns deles, infelizmente, estão presentes em muitas dinâmicas escolares e familiares:

  • Privação de sono na infância
  • Traumas familiares como a perda de um parente próximo, divórcio conflituoso ou violência doméstica
  • Uso de telas por crianças, especialmente quando são expostas a conteúdo violento ou inadequado
  • Bullying, seja no ambiente familiar, escolar ou virtual
  • “Terceirização da infância”, quando há intensa redução no tempo de convivência entre pais e filhos

 

Os sintomas da depressão diferem entre crianças e adolescentes. Em pequenas e pequenos de até 10 anos, são comuns as queixas somáticas: dores abdominais, de cabeça, nos membros inferiores e náuseas. Além deles há sintomas comportamentais: choro fácil, irritabilidade, agressividade, comportamento opositor e resistência à escola. Podem se manifestar também alguns distúrbios do sono como a insônia e o terror noturno.

Já em adolescentes, os sintomas comportamentais são mais comuns (e intensos): desinteresse generalizado ou o comportamento oposto, a agitação psicomotora; alterações severas no apetite; comportamento de autolesão; ideação suicida. 

 

Depressão em crianças e adolescentes: diagnóstico, prevenção e tratamento

O diagnóstico é clínico. Não há exames laboratoriais que detectam a depressão em crianças e adolescentes. A pediatra pode até solicitar exames de sangue, mas eles servem para descartar outras patologias cujos sintomas podem se confundir com os da depressão.

Na anamnese que investiga a condição, a pediatra irá avaliar tanto o paciente quanto a família, dado que as condições genéticas e os episódios familiares estão entre os principais causadores do transtorno. Casos de depressão na família são informações valiosas para o diagnóstico.

No caso da depressão em crianças e adolescentes, parte das ações de prevenção são as mesmas do tratamento, em pacientes com quadros leves a moderados. Essas ações concentram-se principalmente em mudanças no estilo de vida. A principal é a construção de um ambiente familiar afetuoso. Crianças que são privadas de carinho e atenção adoecem.

Além disso, uma condução equilibrada dos comportamentos da pequena ou do pequeno, com atenção sobre o reforço positivo, facilitam a compreensão da criança sobre a relação dela com sua própria existência e com o mundo.

Dado que o uso de telas por crianças é um fator que favorece a depressão, é fundamental limitá-las drasticamente. O tempo de brincar deve ocorrer no mundo físico e, sempre que possível, a céu aberto, em contato com outras crianças e com a natureza.

Por fim, deve-se tomar amplo cuidado com a higiene do sono de crianças e adolescentes, preservando toda a noite para o descanso.

Em casos já diagnosticados, sejam eles leves, moderados ou graves, a intervenção terapêutica multidisciplinar – com pediatra, psicólogo, psiquiatra e, em alguns casos, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional – é sempre recomendada. Apenas em casos mais severos a pediatra poderá recomendar o uso de medicamentos.

A maioria dos casos de depressão em crianças e adolescentes é leve a moderada e, sendo assim, com o tratamento terapêutico os sintomas vão reduzindo de intensidade até desaparecer. Contudo, o mais importante para que isso aconteça é o diagnóstico precoce. E para que ele seja feito corretamente, deve-se evitar uma análise pejorativa ou preconceituosa sobre o comportamento da criança e do adolescente.

Assim como o autismo e o TDAH, a depressão é um transtorno. Mas diferente daqueles, ela pode evoluir para comportamentos extremos, nos quais o próprio paciente coloca a vida em risco. Portanto, diante da repetição de alguns sintomas, acolha sua filha ou filho e procure a pediatra. Vamos investigar o caso dele para que o tratamento, se necessário, comece o mais rápido possível.

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