Ansiedade e autismo

Déficit nas habilidades de comunicação verbal e não verbal, limitação nas capacidades comportamentais, interesse reduzido à abertura social… Os sinais que observamos em crianças autistas apontam para uma das principais dificuldades que o paciente enfrenta: a regulação emocional. É importante que pais e cuidadores entendam essa realidade, especialmente a relação entre ansiedade e autismo.

O transtorno do espectro autista é uma condição que provoca alterações em várias dimensões da vida do paciente e, sendo assim, torna-se muito desafiador para os cuidadores. Episódios críticos de ansiedade são comuns em situações de seletividade alimentar; apresentam-se devido às dificuldades do portador de TEA com o sono; e podem se manifestar em diversos outros cenários.

Além disso, é extremamente comum que o autismo esteja associado a outros transtornos neurobiológicos. A ansiedade, mais especificamente o Transtorno de Ansiedade Generalizada, está classificado tanto na Classificação Internacional das Doenças quanto no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Neste texto vamos falar sobre as dificuldades de regulação emocional que o paciente autista enfrenta, como ela pode estar associada a outros transtornos e o que pais e cuidadores podem fazer para ajudar sua filha e filho.

Transição alimentar

 

Regulação emocional

Para que fiquem claros os obstáculos que crianças autistas enfrentam para regular suas emoções, é importante compreender as lacunas mais fundamentais em portadores de TEA: os sentidos, a linguagem e a cognição.

Em um dos meus textos mais recentes apresentei o transtorno do processamento sensorial, o TPS, e destaquei como é bastante comum ele estar associado ao autismo. A principal característica do transtorno do processamento sensorial é a dificuldade do cérebro em receber, organizar e responder às informações captadas pelos sentidos. Para entendê-la melhor, vamos recorrer a outro post deste blog.

Quem leu o meu texto sobre aprendizagem de crianças com TDAH vai se lembrar que, em indivíduos que não possuem transtornos neurobiológicos, o processo de lembrança, interpretação e entendimento de uma informação ou conceito é fluida, natural. Já em crianças com TDAH e autismo – estando ele associado ao transtorno do processamento sensorial ou não -, há lacunas nesse processo. Portadores de TPS apresentam incômodo extremo com luzes, sons e texturas ou alta tolerância à dor e estímulos táteis, demandando estímulos intensos para conseguir interagir. Em outras palavras, eles não interpretam, como as outras pessoas, as informações absorvidas por sua visão, tato, audição, olfato e paladar.

O mecanismo que usamos para interpretar é o mesmo que usamos para manifestar: a linguagem, verbal ou não verbal. Se o portador de um transtorno neurobiológico não entende exatamente o que está acontecendo no ambiente no qual está, ele não vai conseguir explicar – e nem mesmo expressar – suas emoções. Essa condição vai colocá-lo num estado de maior confusão mental, ficando ainda mais difícil para ele regulá-las.       

 

Ansiedade e autismo: situações críticas e o que fazer

Quem viu o filme Divertida Mente 2 vai se lembrar que a Ansiedade era um personagem laranja, uma cor que é a mistura do vermelho com o amarelo ou, retomando o filme, a “fusão” das cores do Raiva e da Alegria. Podemos tranquilamente dizer que a ansiedade é uma emoção que transita entre a irritação e a euforia.

Clinicamente falando, a ansiedade é definida pela Psicologia como uma sensação de tensão, pensamentos preocupantes e pode gerar alterações físicas: aumento da pressão arterial, sudorese e taquicardia. Diferente do medo, que é uma resposta a uma ameaça imediata e real, a ansiedade é orientada para o futuro e normalmente está associada à evitação contínua de situações percebidas como ameaçadoras.

O primeiro cuidado que pais e cuidadores devem ter é observar se sua filha ou filho está realmente vivenciando essas sensações. Conforme já dissemos, uma das maiores dificuldades dos portadores de TEA é com a comunicação verbal e não verbal. Sinais passíveis de serem interpretados como de ansiedade podem estar dizendo outra coisa.

Os momentos de ansiedade e autismo serão manifestados principalmente pelo corpo da criança, das seguintes formas:

  • Reações exageradas a estímulos sonoros e visuais
  • Demonstração de sofrimento intenso diante de mudanças de rotinas
  • Movimentos repetitivos e estereotipados – o chacoalhar das mãos ao lado do corpo, conhecido como flapping de mãos
  • Movimento pendular do corpo para frente e para trás 

 

Diante de um episódio de pico de ansiedade, pais e cuidadores devem seguir os seguintes passos:

  1. Imediatamente verificar se há algum estímulo sonoro ou visual (luzes fortes, som alto) que pode estar provocando a reação
  2. Assumir uma postura calma
  3. Evitar confrontos verbais e correção imediata
  4. Garantir um espaço físico seguro para que a criança se regule
  5. Não recorrer à contenção física, a menos que exista risco de agredir outra pessoa ou a si mesmo

 

Por fim, nunca é demais lembrar que a melhor forma de tratar o autismo, com todos os seus sintomas e complexidades, é ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar que vai, prioritariamente, promover sessões de terapias comportamentais, ocupacionais e fonoaudiológicas, além do principal: o carinho e acolhimento de toda família. 

Se você está percebendo mudanças comportamentais bruscas mais recorrentemente no comportamento da sua filha ou filho autista, entre em contato e agende uma consulta com a pediatra. Conversaremos e procederemos com uma análise clínica para checar o momento atual da condição da sua pequena ou pequeno. Assim poderemos replanejar a abordagem para que ela ou ele supere a nova etapa e desenvolva habilidades para aprimorar sua regulação emocional.

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