Ação da cafeína em crianças

Nutrição e sono são dois dos assuntos que mais despertam dúvidas em mães e pais. Por ser um tema recorrente no meu consultório, neste texto, vou falar de uma substância presente em alguns alimentos e que afeta tanto o sono quanto outras funções das pequenas e pequenos. Ao tratar da ação da cafeína em crianças, quero chamar a atenção para os riscos envolvidos no consumo de café – essa bebida tão presente na cultura mineira!

Eu não duvido que algumas mamães e papais tenham se acostumado a beber café desde pequenos. Sim, ela é uma bebida muito tradicional em Minas Gerais e, décadas atrás, não conhecíamos tão detalhadamente a ação da cafeína em crianças. Contudo, além de diversos estudos terem ampliado nosso conhecimento sobre os efeitos dessa substância no organismo, surgiram ou popularizaram-se outros alimentos com cafeína em sua composição. Em outras palavras, o risco de ingestão de cafeína não está apenas no consumo do café.

A Associação Americana de Pediatria não recomenda a ingestão de café para crianças menores de 12 anos. Para adolescentes, a recomendação é de, no máximo, 100mg por dia. Manter esse nível de consumo pode ser especialmente desafiador para mamães e papais, especialmente por causa da concentração de cafeína em refrigerantes de cola. Uma lata dos tradicionais refrigerantes de cola – Coca-Cola ou Pepsi – tem em torno de 35mg de cafeína.

Transição alimentar

 

Entendendo a substância

A cafeína é um composto químico classificado como alcaloide, do grupo das xantinas. Presente no café e em outras plantas, como o guaraná, o chá-mate, a cola, o chá-verde e o cacau, a cafeína está na nossa alimentação diária, especialmente em diversas bebidas bastante tradicionais.

No nosso corpo, a cafeína bloqueia os receptores de adenosina, uma substância que é gerada no consumo de energia do nosso corpo. Conforme gastamos energia ao longo do dia, a adenosina vai sendo gerada e se acumulando nas sinapses de certos neurônios no Sistema Nervoso Central, gerando a sensação de cansaço que normalmente antecede a fase de sonolência.

Contudo, se há cafeína no nosso corpo, ela bloqueia os receptores de adenosina no Sistema Nervoso Central, aliviando a sonolência e restaurando ou mantendo o estado de alerta.

A ampliação do estado de alerta é o principal, mas não o único efeito da cafeína. Esta também é um estimulante da frequência respiratória e cardíaca. É especialmente por causa desse efeito que a cafeína está presente em diversas bebidas energéticas, inclusive para atletas de alta performance.

 

Ação da cafeína em crianças: quais são os riscos?

À primeira vista, podemos interpretar os efeitos da cafeína como positivos. E a verdade é que, em adultos e em doses moderadas, os efeitos são sim favoráveis. Mas nunca é demais lembrar que crianças não são pequenos adultos: sua fisiologia, bioquímica e metabolismo são bem diferentes.

A meia-vida biológica da cafeína – que é o tempo necessário para que o corpo elimine pelo menos metade do que foi ingerido – é de 3 a 7 horas em adultos saudáveis. Em recém-nascidos essa meia-vida ultrapassa as 80h! Isso quer dizer que, se um bebê ingere cafeína, o efeito no seu corpo vai durar mais do que três dias inteiros – talvez quatro!

E basta acessar o último texto do meu site, sobre o sono do bebê, para entender o quanto isso pode ser grave! Recém-nascidos precisam dormir para crescer e para desenvolver seus sistemas, especialmente o Sistema Nervoso e o Imunológico. Um bebê, a partir dos três meses de vida, deve dormir entre 12 e 16h para desenvolver suas funções vitais saudavelmente. Essa tarefa fica muito mais difícil se o seu estado de alerta é impactado pela ação da cafeína em crianças.

E mesmo a partir de um ano, crianças devem dormir bastante. Na fase da infância em que precisam de menos sono, que é entre os seis e 12 anos, crianças devem dormir de 9 a 12h por dia! Ou seja, até os 12 anos, mesmo pequenas doses de cafeína podem afetar o desenvolvimento da criança.

Só que o perigo da ingestão de cafeína por crianças não está apenas no café. Em média, cada 10mL de refrigerante de cola tem 1mg de cafeína. A recomendação da Associação Americana de Pediatria é que crianças até 12 anos não consumam nenhuma bebida que contenha cafeína. Entre os 12 e 18 anos, a quantidade de cafeína ingerida diariamente deve ser, no máximo, de 100mg.

Casos de taquicardia por consumo de cafeína já foram diagnosticados em crianças menores de cinco anos nos Estados Unidos. Alguns deles, por consumo de refrigerante horas antes do episódio de taquicardia começar.

Por mais forte que seja a tradição do café na sua família mineira, nunca dê bebidas com cafeína para crianças menores de 12 anos. A partir dessa idade, as quantidades devem ser controladas!

Mamães e papais: caso vocês tenham dúvidas sobre quais alimentos podem ou não conter cafeína ou se quiserem entender melhor os efeitos da ação da cafeína em crianças, aproveitem as consultas de puericultura com a pediatra para respondermos suas perguntas. Cuidar da nutrição da sua filha ou filho é uma das principais atitudes a se tomar para que eles cresçam saudáveis!